As tragédias sempre têm uma fato, uma imagem, que viram uma espécie de emblema. Para mim, a do atentado ocorrido em Boston, nesta segunda, é esta, de John Tlumacki (The Boston Globe/Getty Images). Roland Barthes escreveu um ensaio sobre fotografia no qual afirma que as imagens têm o que ele chamava “puncta” (plural da […]
Os Três Porquinhos Reaças por Felipe Melo

Três Porquinhos Reaças
Era uma vez três porquinhos: Cícero, Heitor e Prático. Um belo dia, os três porquinhos decidiram sair da casa de sua mãe e construir as próprias casas. Cícero construiu para si uma casa de palha, Heitor, uma casa de madeira, e Prático, uma casa de tijolos. Cícero e Heitor construíram rapidamente suas casas, enquanto Prático demorou mais para construir a sua, já que era mais difícil erguer paredes de tijolos do que de palha ou de madeira.
Certa vez, apareceu um lobo nas redondezas. Movido por sua natureza predatória, o lobo quis devorar os porquinhos. Indo à casa de Cícero, o lobo bateu à porta. Cícero se escondeu, mas o lobo derrubou a casa com seu poderoso sopro, fazendo Cícero fugir. Em seguida, o lobo foi à casa de Heitor, que também se escondeu quando o lobo bateu à porta. Novamente, o lobo usou seu sopro poderoso, derrubando a casa do segundo porquinho, que fugiu para a casa de seu irmão Prático – onde encontrou Cícero, que fugira para lá antes.
O lobo, então, foi à casa de Prático. Tentou derrubar a casa, mas não conseguiu, pois a casa de tijolos era bem forte. Então, o lobo empreendeu uma nova tática e, vendo que a casa tinha uma chaminé, tentou usá-la para entrar na casa. No entanto, Prático acendeu o fogo e pôs sobre ele uma panela, que começou a queimar a cauda do lobo. O lobo fugiu, machucado, e os porquinhos ficaram a salvo. Mas não por muito tempo.
Dias depois, todos os jornais noticiaram que o pobre lobo havia sido discriminado pelos três porquinhos, que haviam adotado uma postura conservadora e reacionária contra o lobo por não quererem entender a sua natureza. O lobo entrou com uma representação na Secretaria Especial da Igualdade Animal da Presidência da República, que encaminhou o caso ao Ministério Público Animal. O Ministério Público Animal, após alguns dias de investigação, encaminhou denúncia à Justiça Animal contra os três porquinhos por especismo (preconceito contra uma espécie) e tentativa de lupicídio. Diversas ONGs do movimento lupino promoveram “esculachos” na frente da casa dos porquinhos, denunciando o inaceitável conservadorismo suíno. O Conselho Lupinista Missionário publicou uma carta-aberta do lobo, denunciando que o ato cometido contra ele pelos porquinhos representava o genocídio que a nação lupina sofria nas mãos da elite suína.
A comoção nacional foi geral. Passeatas foram convocadas nas redes sociais contra o genocídio lupino, os revoltados acrescentando em seus nomes o termo Loboni-Uivoá em homenagem ao pobre lobo. Personalidades animais manifestaram-se no Twitter, deram declarações a jornais e revistas, e até um vídeo foi elaborado com atores de uma prestigiosa emissora de televisão para sensibilizar as pessoas. O Executivo criou a Campanha do Despanelamento com a justificativa de recolher as panelas clandestinas para reduzir os índices de violência e promover uma cultura de paz. As ONGs do movimento lupino entraram com uma ação de expropriação contra os porquinhos com base em estudos que apontavam que aquela região pertencia originalmente aos ancestrais lupinos, expulsos dali pelo agronegócio suíno muitas décadas antes. A Justiça Animal considerou a ação procedente, acatou o pedido e despejou os porquinhos, ordem que foi cumprida pela Força de Segurança Animal, dando a casa para o lobo. Presos, os porquinhos foram condenados pela Justiça Animal pelos crimes de tentativa de lupicídio e especismo, o que rendeu a eles uma pena bastante pesada. Importantes apoiadores da causa lupina, como o Frei Lobonardo Boff, disseram que aquele era um dia especial para todas as vítimas do especismo reacionário dos porcos brancos de olhos azuis, e outros aplaudiram a decisão da Justiça Animal, que certamente representava a valorização das lutas históricas dos povos lupinos. Em tempo: esta é uma adaptação livre de um conto infantil, e se trata apenas de uma pequena obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.
Fonte contra-revolucionária: Juventude Conservadora da UnB
http://www.vanguardapopular.com.br/portal/comentario-popular/269-os-tres-porquinhos-reacas
A semana termina sob o signo do beijo. Falemos, então, de beijos. E também de tapas. Vejam esta imagem. Acima, o então cardeal de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, beija os pés de pacientes de AIDS internados numa instituição da capital argentina na Missa de Lava-Pés de 2001. Ele preferia realizar o ritual da Quinta-Feira Santa […]
Desembarques na Normandia - João Pereira Coutinho (cotas)
19/03/2013 - 03h00
Cotas raciais nas universidades: os argumentos são conhecidos.
Para o pensamento progressista, as cotas são uma forma de corrigir injustiças passadas, abrindo as portas das melhores universidades a candidatos negros, ou hispânicos, ou nativos-americanos etc.
Para temperamentos mais conservadores, as cotas são uma nova forma de racismo, ainda que invertido, ao reduzir a singular individualidade de cada um à mera pigmentação da pele.
E são, claro, um atentado às mais elementares noções de mérito.
Os argumentos são conhecidos, repito. Mas o que dizer quando duas bíblias do progressismo americano —o “New York Times” e a revista “Atlantic”— publicam matérias altamente críticas sobre as políticas afirmativas no país?
Aconteceu. Nenhuma delas repete argumentos gastos porque a discussão deixou de ser ideológica. Passou a ser empírica: estarão as políticas afirmativas a produzir efeitos contrários aos pretendidos?
Ambas respondem que sim e dão nome ao descalabro: “mismatch”. Ou, traduzindo o conceito, alunos impreparados que entram em universidades de elite através de preferências raciais têm desempenhos acadêmicos sofríveis.
E esse “mismatch” não se limita aos anos de formação. Ele acompanha os indivíduos para o resto das suas vidas profissionais.
O problema é particularmente pronunciado nas ciências, nas engenharias e nas matemáticas, o que não admira: o conhecimento nas “ciências exatas”, relembra o “New York Times”, é um conhecimento contínuo, onde é necessária uma forte preparação de base para haver progressos contínuos também.
Sem essa preparação, chegar a universidades de elite apenas pela cor da pele é uma espécie de desembarque pedagógico nas praias da Normandia.
A “Atlantic” quantifica essa carnificina: os alunos negros continuam a preferir mais cursos de ciências ou de engenharia do que os brancos; mas o “mismatch” faz com que a desistência entre negros seja o dobro da verificada entre os brancos.
O mesmo acontece depois da universidade: em direito, por exemplo, os alunos negros são reprovados no exame de acesso à profissão quatro vez mais do que os alunos brancos; o “mismatch” explica metade desses fracassos. O que fazer perante os números aterradores das políticas afirmativas?
Escondê-los tem sido uma opção, o que significa arruinar silenciosamente a vida de milhares de pessoas para que as consciências progressistas possam dormir com as suas vaidades intactas.
Outra opção, sugerida sem um pingo de vergonha pelo “New York Times”, é “convidar” as instituições de elite a serem um pouco menos de elite. No fundo, “convidar” Harvard a não ser Harvard —uma forma de corrupção intelectual e um caminho para o atraso científico do país.
Mas existe uma terceira via: defender a velha ideia de que competências médias devem frequentar universidades médias.
A “Atlantic”, aliás, revela uma curiosa experiência: em 1998, a prestigiada UCLA deixou de usar critérios raciais nas suas admissões. Resultado imediato: queda acentuada de alunos negros (menos 50%) e hispânicos (menos 25%). Escândalo e protestos.
Porém, o mais espantoso é que, nos anos seguintes à abolição dos critérios raciais e, apesar da queda, o número total de negros e hispânicos graduados pela UCLA era semelhante ao número de negros e hispânicos que terminaram os seus cursos antes da abolição. Por quê?
Razões várias. Cito duas. Primeiro, porque a UCLA acabou por atrair os melhores alunos negros e hispânicos que assim puderam frequentar uma universidade sem o “estigma” das políticas afirmativas.
E, mais importante ainda, porque aumentou o número de alunos negros e hispânicos que iniciaram a sua formação em universidades mais modestas -e só depois se transferiram para a UCLA.
Sim, ideologicamente, sou contra discriminações positivas (ou negativas) porque sou incapaz de reduzir qualquer ser humano a um “grupo” ou uma “raça”. E não creio que seja função da universidade prosseguir agendas igualitárias. Apenas científicas.
Mas existem evidências empíricas que reforçam as ideológicas: a igualdade de oportunidades deve ser uma igualdade de base na formação de qualquer indivíduo.
Pretender corrigir no fim o que vem torto desde o início é destruir vidas adultas com ilusões politicamente corretas.

João Pereira Coutinho, escritor português, é doutor em Ciência Política. É colunista do “Correio da Manhã”, o maior diário português. Reuniu seus artigos para o Brasil no livro “Avenida Paulista” (Record). Escreve às terças na versão impressa de “Ilustrada” e a cada duas semanas, às segundas, no site.
A hora impossível de um Papa Francisco I
Sábado, 09 de março de 2013
A hora impossível de um Papa Francisco I
Os quartos de Bento XVI estão vazios: com que o nome irá responder ao Escrutinador o próximo papa que irá dormir no seu leito? Após o anúncio do conclave, o pontífice pré-escolhido tem “um minuto inteiro” para pensar a respeito. O primeiro sinal da Igreja que muda poderia ser o nome do sucessor de Ratzinger. Da sacada, ninguém nunca anunciou “eis Francisco”, Francisco I, para reiterar o compromisso do santo que protege a Itália, mas sempre esquecido pelos descendentes de Pedro.
A reportagem é de Maurizio Chierici, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 08-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Ele morreu há quase oito séculos, mas ninguém se sentiu disposto a abraçar a sua espiritualidade e a sua dedicação absoluta à vida dos outros. “Francisco é um nome impossível para a carga de poderes com os quais, ao longo dos séculos, foi construído o papado: infalibilidade, soberania, controle na forma de todo serviço, autoridade sobre milhões de fiéis, responsabilidade de propostas. Não é uma questão de humildade pessoal. Francisco impõe uma pobreza difícil a qualquer soberano vaticano”.
Raniero La Valle não imagina que o próximo papa possa se lembrar disso. O que o conforta é a renúncia de Bento XVI, que restitui ao pontífice a fragilidade humana. Reevocada por Paulo VI no seu único discurso de improviso depois do Concílio: ele pediu que a Igreja se tornasse pobre “não só no ser, mas também no aparecer”, palavras que se esvaíram com o tempo.
Diretor e testemunho para o jornal Avvenire, dos bispos italianos, nos anos do Concílio Vaticano II, La Valle hoje gira o mundo pela Rai em busca dos últimos. Entre os livros Dalla parte di Abele, Pacem in Terris, La teologia della liberazione e a belíssima memória Il mio Novecento. Ele lidera os Comitês Dossetti para a Defesa da Constituição. A separação da Igreja da gestão dos bens é um tormento que atravessa os anos: quem também o invoca é Heinrich Böll, prêmio Nobel de Literatura que cresceu no pacifismo católico da Alemanha ano zero.
“Será sempre tarde demais quando a Igreja e a aristocracia se separarem das suas imensas propriedades, dos seus tesouros, das ridículas e pomposas ninharias com as quais elas continuam se adornando. Um aspecto do mundo ocidental são, justamente, as propriedades das Igrejas. Terrível fardo que pesa sobre o atormentado e sofredor líder daquela que é ainda hoje a mais poderosa das Igrejas. Quem poderia renunciar à propriedade? Quem, senão essa Igreja que não tem descendentes? Torna-se cada vez mais tarde”.
Era 1969. Em Castel Gandolfo, o Papa Montini repetia as mesmas palavras: “Com este Vaticano, nunca haverá um papa chamado Francisco, porque Francisco destruía as regras humanas apenas na obediência ao Evangelho. Nenhuma estrutura piramidal, nenhuma burocracia, nenhum privilégio”. Quando ele descobriu que um irmão da Ordem construiu para si uma pequena casa, ele subiu ao telhado e, uma a uma, arrancou as suas telhas: que pobreza é essa se muitos irmãos se refugiam nas grutas da campanha? Quem o lembra é Ettore Masina, vaticanista e escritor que relatou o Concílio.
Francisco vinha da riqueza do pai, do qual se separou despojando-se das roupas diante do bispo e de uma multidão de curiosos. A pobrezaé a vocação que o fez passar por louco. “Portanto, é impossível, nos nossos anos, que um pontífice chamado Francisco possa habitar no Vaticano. Ele deveria viver na última paróquia de Roma”.
O padre Paolo Farinella, pároco no centro de Gênova de uma paróquia sem paroquianos, viveu em Jerusalém nos anos do cardeal Martini. Estudou hebraico, aramaico e grego. Tem duas graduações em teologia bíblica, sobretudo a análise religiosa e política da Terra Santa devastada por repressões e intifadas. Os seus livros são publicadas pela editora Gabrielli. Em 2000, publicou o romance Habemus Papam, Francesco I. Dez anos depois, ele o reescreveu com o título Habemus papam. La leggenda del papa che abolì il Vaticano [A lenda do papa que aboliu o Vaticano], mas a história não muda.
Ele conta a história de um pároco genovês chamado a Roma, onde os Padres do conclave não chegam a um acordo, e um cardeal que conhece as virtudes do pequeno padre faz a excêntrica proposta: e se escolhêssemos alguém assim? Pároco desarmado nos círculos da burocracia vaticana. Papa ideal nas mãos dos manipuladores. Eis a surpresa: assim que o Escrutinador se dirige a ele para perguntar-lhe “quomodo vocaberis?”, como você quer se chamar, o velho padre responde: “Francisco I”.
E, quando, do trono, se dirige ao povo, a voz não treme: “Escolhi o nome de Francisco não por um capricho político, mas sim para que ele permaneça como marca de fogo na minha carne. Deve ser um lembrete constante a levar a sério o Evangelho: a caridade como lei, a pobreza como estilo, a comunhão como método”.
A multidão observa, perplexa, os paramentos que brilham. “Eu sei perfeitamente o que vocês estão pensando: prega bem, mas pratica mal”. Com lentidão exasperada, começa a se despojar. “Deponho esta férula de prata: como diz Marcos, não levem para a viagem nada mais do que um bastão. Deponho este chapéu anacrônico: mais do que um pastor, ele me mostra como um sátrapa oriental”. Ele se desfolha como uma cebola: do anel de zafira, da cruz de ouro maciço, dos paramentos “luxuosos que deveriam render glória a Deus e se tornam ofensa para os pobres”.
Ele fica com uma túnica branca. “E, por um momento, bispos e cardeais se envergonharam por não estarem nus como Adão e, olhando-se adornados pelos mantos no espelho da sua alma, se reconheceram ridículos”.